Ricardo Silva, o português faz os parques de diversões incríveis da LEGO

“Ricardo Silva é professor de formação, mas desde 2012 que integra a equipa de design na sede da LEGO, em Billund, na Dinamarca. Tem 39 anos e sempre adorou brincar com as peças coloridas em miúdo. Por isso, é justo dizer que os seus sonhos de infância tornaram-se uma realidade.

Este português é responsável por alguns dos kits da coleção Friends e tudo isto graças à sua mulher, que também é portuguesa. Da Dinamarca só tem coisas boas para dizer. Os dois únicos problemas são as saudades da família e dos amigos e, claro, da nossa comida.

A NiT entrevistou Ricardo Silva para perceber como é o seu dia a dia numa das empresas de brinquedos mais conhecidas do mundo. E já agora, o que é que o Ricardo de dez anos diria ao Ricardo de 39.

Como começou a trabalhar na LEGO?
O LEGO sempre foi o meu brinquedo de eleição quando era criança mas, com o passar dos anos, e com a chegada da adolescência, acabou por ficar esquecido. Quando me casei, em 2006, contei à minha esposa que gostava de LEGO e ela incentivou-me a levar para a nossa casa todas as peças da minha infância que estavam guardadas em casa dos meus pais. E assim foi, depois de 14 anos sem tocar em LEGO, voltei a ter uma ligação muito especial com as ‘pecinhas’ de plástico. Com o apoio da minha esposa, comprei novos conjuntos e inscrevi-me numa comunidade portuguesa de fãs adultos de LEGO, a 0937. Através desta comunidade comecei a fazer as minhas próprias construções (as MOCs — My Own Constructions) e comecei a participar em exposições de LEGO por várias localidades de Portugal. Durante seis anos fui construindo dentro dos mais variados temas (piratas, cidade, espaço, western, etc.) e melhorando o meu portefólio de criações LEGO. Ao mesmo tempo, a minha situação profissional como professor contratado estava cada vez mais instável. Por isso, decidi candidatar-me a uma oportunidade de emprego como designer de modelos LEGO. Passei por várias fases de recrutamento, ao longo de um mês e meio, e finalmente fui o escolhido.

Foi viver para a Dinamarca por causa deste emprego?
Sim, fui para a Dinamarca por causa deste emprego, e, desde setembro de 2012 que estou a trabalhar como designer na LEGO. Estou a adorar a experiência. Penso que posso afirmar que estou a viver o meu sonho e que consegui transformar o meu hobby na minha profissão. Ainda por cima adoro trabalhar aqui na Dinamarca porque as condições são fantásticas.

Brincava muito com peças LEGO em miúdo?
Eu tive uma infância muito feliz porque brincava com brinquedos diferentes. Ao mesmo tempo passava muito tempo no exterior a brincar com os meus amigos e vizinhos. Mas o LEGO tinha sempre um lugar especial no meu coração. Era com ele que eu conseguia dar asas à minha imaginação e criava tudo aquilo que queria.

Qual era o seu kit favorito?
Ainda me lembro perfeitamente do meu kit favorito. Devia ter seis ou sete anos e os meus pais ofereceram-me o 6360 — Weekend Cottage. Era uma casa amarela com um telhado vermelho, duas figuras, e um barbecue na parte exterior. Era bastante simples mas é na simplicidade que a LEGO se revela um brinquedo muito poderoso. Com apenas alguns blocos é possível construir uma variedade quase infinita de soluções. Por incrível que pareça ainda tenho este conjunto de LEGO, e muitos outros da minha infância.

A sua formação tem alguma coisa a ver com este universo?
Formei-me em educação no Ensino Básico, com variante de português e inglês, na Escola Superior de Educação de Leiria (Instituto Politécnico de Leiria). Dei aulas entre 2002 e 2012 em algumas escolas portuguesas.

Fora das escolas, como é o seu dia a dia numa empresa como a LEGO?
Um dia de trabalho na LEGO depende muito da altura do ano, mas passo a explicar como funciona um dia perfeito aqui no escritório. Normalmente começa-se o dia por ligar o computador e responder a emails. Depois criamos um moodboard com várias imagens relacionadas com o tema do kit que temos de construir e imprimimos. De seguida, vamos para a mesa de construção — onde temos uma secretária e muitos armários com gavetas repletas de milhares de peças LEGO — e começamos a construir o que poderá vir a ser um futuro kit de LEGO. À hora de almoço, a minha equipa junta-se para almoçar, conversar um pouco e tomar um café. Após a pausa de almoço voltamos à mesa de construção para continuar a construir. Ao fim do dia, reunimo-nos e mostramos o trabalho que realizámos a toda a equipa e ouvimos e damos feedback sobre as construções dos colegas de trabalho.

Qual é o seu cargo em concreto?
Neste momento sou senior designer e wingman em LEGO Friends. Isto significa que, juntamente com o creative director, definimos quais os kits de LEGO Friends que irão fazer parte do portefólio. E damos orientação de design a toda a equipa. À parte disto, oriento muitos dos aspetos técnicos e organizacionais da equipa e construo, sempre que posso, novos kits de LEGO Friends.

Foi responsável por algum projeto mais popular?
Os kits mais recentes em que trabalhei foram o 41375 – Heartlake City Amusement Pier, e o 41337 – Underwater Loop. São ambos relacionados com um parque de diversões e contêm funções com movimento, o que faz com que o LEGO ganhe vida.

Ricardo Silva com a roda gigante do LEGO Friends 41130.

Em que projeto está a trabalhar agora?
Neste momento estou a trabalhar em futuros kits de LEGO para 2021, mas não posso dizer quais são. Terão de aguardar para descobrir. Apenas posso dizer que são fantásticos.

Imagina algum dia regressar a Portugal?
Eu visito Portugal regularmente, pelo menos duas vezes por ano, para matar saudades da família, dos amigos, do sol e da comida. Mas não tenho intenção de voltar para Portugal, de momento.

O que é que gosta mais na Dinamarca ou nos dinamarqueses?
Uma das coisas de que mais gosto é o horário de trabalho. É muitas vezes flexível e a regra dos ‘três oitos’ é para se cumprir. Ou seja, oito horas para dormir, oito horas para trabalhar e oito horas para relaxar. Existem muitas diferenças culturais e sociais entre o povo português e os povos escandinavos. Os portugueses são mais afáveis ao primeiro contacto, enquanto que os dinamarqueses mantêm alguma distância. Lembro-me de, no início, tentarmos cumprimentar outras pessoas com dois beijos na cara e víamos claramente que eles não estavam preparados para isso. O comum é dar um abraço, e mesmo assim tem de ser um abraço muito leve, quase sem contacto. E é assim que agora fazemos, por uma questão de hábito e respeito. Outra das coisas que me fui apercebendo ao longo destes anos é que os dinamarqueses são muito patriotas. Eles adoram tudo o que está relacionado com o seu país e gostam de o demonstrar das mais variadas maneiras, seja a içar uma bandeira nos jardins num dia especial, seja a colocar o nome Dan (significa dinamarquês) no nome das suas empresas, ou ainda a apoiar vivamente todo e qualquer produto que tenha origem dinamarquesa. Do ponto de vista da comida, para um país que está quase todo rodeado de mar, existe muito pouca variedade de peixe na cozinha dinamarquesa e isso é uma das coisas das quais sentimos mais falta.

O que é que o Ricardo de dez anos pensaria do Ricardo atual que trabalha na LEGO?
Quando for grande quero ser como tu — é porventura a expressão que utilizaria, pois trabalhar na LEGO é como um sonho de miúdo que se tornou realidade.”

https://nit.pt/out-of-town/miudos/este-portugues-faz-parques-de-diversoes-incriveis-na-lego?fbclid=IwAR0looU72nJmRBPu-EFbUT05fDpRTPvuc8F1XoYN7SpxHm-U54WPheS2S7w