Isabel Tofte

 

"Uma transmontana no reino gelado da Dinamarca

 

Isabel Tofte emigrou por amor, mas nunca esqueceu a sua maior paixão, o seu país. Ela montou uma empresa que vende vinhos e produtos made in Portugal, contrariando assim a nossa má imagem no exterior e promovendo o que de melhor sabemos fazer. Venha conhecer esta transmontana de gema.

 

Como surgiu o conceito da Vinport? o que te levou a criar este negócio?

O conceito da VinPort comecou a “borbulhar” na minha imaginação, logo na primeira visita à Dinamarca. Queria fazer um jantar à portuguesa e, claro não poderia faltar o nosso afamado nectar. Qual foi meu espanto quando fui ao supermercado, só havia duas referências portuguesas, e como podes imaginar, não era das que mais me orgulhava…..

Conheci o  meu marido em Genebra numas férias, que deveriam ser de duas semanas, mas passaram a ser dois anos. Na Suíça, os produtos portugueses estão representados com força e quantidade em muitos sítios. Penso que, o facto de ser um país com muita emigração portuguesa, tenha ajudado.  Daí o Lars (o meu marido) ter criado laços profundos com os nossos vinhos, gastronomia e cultura.

Em 2004 viemos viver definitivamente para a Dinamarca. Mas surgiu um problema, não sabia falar dinamarquês, o meu inglês era péssimo e ninguém me entendia em francês. Aprendi dinamarquês por força das circunstâncias.

Foi assim, com uma troca de ideias com uns amigos, numa esplanada em Østebro,  chegamos ao nome VinPort , que provém de vinho, porta e está claro a ligação inevitável ao vinho do Porto.

Registamos a empresa dia 17 de Junho 2004, em Agosto tinhamos a primeira mercadoria. O logótipo foi-nos oferecido pela madrinha do Lars uma conceituada artista dinamarquesa Margrethe Kaas.

 

Foi fácil a aceitação de produtos portugueses, nomeadamente vinhos? os dinamarqueses estavam minimamente familiarizados com este e outro tipo de produtos portugueses?

 

Na generalidade, o consumidor típico dinamarquês é muito conservador. Por isso, podes imaginar que não foi fácil superar essas barreiras. Os dinamarqueses mais velhos, têm ainda a triste lembrança do escândalo das “garrafeiras” do Dão. Nos anos 70 cerca de 65% dos vinhos importados para a Dinamarca eram portugueses, agora com sorte conseguimos chegar aos 2 % da quota do mercado.

Tem sido um trabalho duro, a divulgação, a aceitação demoram o seu tempo a criar hábitos.Quando se perguntava há sete anos, o que eles sabiam de Portugal, respondiam; bacalhau, vinho do Porto e fado, mas nem sempre de uma forma positiva.. Diria mesmo que o diziam com desprezo e ironia. O que claro me revoltava, cheguei ao ponto de não dar amostras, nem de vender vinho, por desrespeitarem o meu trabalho.

O vinho do Porto, ao contrário do vinho de consumo tem uma aceitação fantástica! Imagina que cresceu 98% entre 2009 e 2010. 3,7% das exportações de vinho do Porto vêm para cá, o que põe a Dinamarca no nono lugar, à frente do Brasil que tem uma ligação directa com Portugal e que também é num continente, comparado com este pais de cinco milhões de habitantes.

Actualmente as vendas de azeite têm duplicado, os dinamarqueses estão mais sensibilizados, começam a utilizar na preparação dos seus pratos, mais azeite e menos manteigas, ou outro tipo de gorduras.Como viajam mais, estão a começar a ver a nossa cultura mais exótica e atraente. Aqui acho que o facto de Portugal ter ganho vários prémios internacionais de turismo tenha ajudado, nesta sensibilização.

 

Quando decidistes promover produtos portugueses tiveste algum apoio por parte das autoridades portuguesas?

 

Achas? Agora fora de brincadeiras, a que tipo de apoio te estás a referir? Apoios monetários, promocionais?  Se é apoio pelas autoridades competentes, tipo Aicep, não tivemos qualquer tipo de apoio, somente  convite para participar na prova anual de vinhos… Quanto à embaixada, tem tentado ajudar-nos na parte cultural, ou seja se há fado, cinema, exposições tentam lá ter os nossos vinhos. Agradecemos imensamente aos responsáveis pela cultura da Embaixada. Relativamente ao Senhor Embaixador, enviamos-lhe a  informação dos eventos existentes e nos quais participamos.  O apoio que tenho sentido é da parte da Viniportugal, embora seja uma instituição, sem fins lucrativos, tem-se esforçado em promover e divulgar os nossos vinhos. Enviam regularmente brindes, revistas e brochuras.        O melhor de todos é dos nossos produtores e fornecedores, que nos apoiam incondicionalmente nesta luta.

 

 

Foi difícil criar um negócio de raíz num país estrangeiro?

A criação da empresa não teve qualquer tipo de complicações. Bastou-nos ir a um estabelecimento de finanças mais próximo e registar! Tão simples quanto isto! Só necessitamos de levar os nossos documentos pessoais de identificação. Fiquei na realidade, chocada, habituada às burocracias portuguesas…..

 

Quando chegastes a Dinamarca qual foi a primeira dificuldade que encontrastes para além da língua?

A ironia e o humor negro! Os dinamarqueses tem uma forma muito especial de ironizar. Enquanto nós latinos gritamos, gesticulamos, usamos palavras de todo o tipo, os escandinavos são capazes de se estar a tratar abaixo de Braga, só com a ironia, não vês um gesto, não houve uma palavra aos berros e, no entanto insultaram-se.

E claro o clima no Inverno não é dos melhores, os dias tornam-se muito curtos, frios e húmidos. Agora já consigo entender o porquê dos dinamarqueses, deixarem tudo de lado, para se irem espreguiçar como lagartos ao sol! É uma forma muito saudável de acumular a vitamina D!

 

E o que achastes de melhor no teu país de acolhimento?

 

A tranquilidade de como a vida é levada. Um dia de cada vez.O verão é lindo! Muito ameno, com temperaturas bastante constantes e com parias lindas, de águas dóceis e amenas. Raramente há ondas grandes.A fidelidade dos dinamarqueses, talvez por isso sejam tão adversos a mudanças. É engraçado quando são pioneiros numa infinidade de coisas!

 

O que pensam os dinamarqueses de Portugal? Como vêem os portugueses?

Na generalidade gostam de nós, acham-nos exóticos ”tipo aves raras”.  Mas infelizmente, continuam com o estereótipo de que tudo o que vem do sul é corrupto, como aliás se tem vindo a demonstrar verdadeiro. O que tem vindo a dificultar o nosso trabalho ainda mais…

 

É fácil ser emigrante na Dinamarca?

 

Não é difícil, desde que tenhas um contracto de trabalho e sejas oriundo da União Europeia. Caso não haja contracto de trabalho, será necessário depositar uma quantia mínima num banco para garantir a sobrevivência pessoal nesses meses.

Actualmente estão a negociar uma nova lei de imigração, o que irá certamente dificultar a emigração.

 

O que sentes mais falta de Portugal?

De Portugal, sinto falta dos meus amigos, da minha família do meu Alvão e Marão e do cheiro inconfundível de Trás-Os-Montes.

O resto esforço-me por tê-los por perto, não é por nada que trabalhamos com produtos nacionais! A gama está cada vez maior, desde o vinho, o azeite, compotas, biscoitos, azeitonas, condimentos, méis e mais virão!"

 

http://vinport.dk/


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