No país da saudade


Não é fácil escrever sobre saudade. Mas é mais difícil senti-la. A “memória do coracão”, como genialmente salientou o escritor Henrique Maximiano Coelho Neto, é presença assídua no quotidiano dos emigrantes. Estes testemunhos de portugueses dispersos por diversos continentes são uma prova irrefutável.

Saudade. Apenas utilizada no português e no galego, deriva do latim (“solitate”- traduzida literalmente, solidão). Diversos tradutores profissionais classificam-na como a sétima palavra mais difícil do mundo para se traduzir. Não é de estranhar. De significado não consensual, encerra um mundo de sentimentos: Amor. Abandono. Ausência. Afastamento. “Dor pungente”, segundo Adriano Costa, emigrante no Brasil. O colaborador do jornal ”Mundo Lusíada” não tem dúvidas:”Todo o ser humano possui no seu âmago a Saudade de tempos passados (...) Em cada dia que passa fica a lembrança dos locais de infância, das danças, das festas, da mocidade, de um amor que lá ficou; sem dúvida um motor grande da Saudade do Portugal eterno”.
José Milhazes, jornalista português a residir na Rússia, é igualmente peremptório: “Saudade? Muita. É preciso salientar que já me encontro fora do meu país há muito tempo”.Uma ideia reforçada por Margarida Rosas, missionária no Benim e Burkina Faso durante mais de 20 anos:“Sentia-me bem na minha pele porque me sentia útil aos outros para os ajudar a crescer na fé em Jesus. Todavia, a saudade esteve sempre presente no meu dia-a-dia. Sentia falta de conversar, de escrever português. E, sobretudo, da família e das pessoas amigas”.

Sim, a saudade dá que falar. Senhora de muitos rostos, deixa impressões digitais em distintos ramos artísticos. Música, por exemplo. Basta escutar a mundialmente famosa morna da cabo-verdiana Cesária Évora “Sodade”. Umaexaltação magnífica a este sentimento tão forte. Os brasileiros interpretam-na de corpo e alma tanto no samba como na bossa. Os portugueses vivem-na como ninguém no fado. “Fatum” em latim: Destino. Saudade faz também parte do destino de Teresa Pellegrini. Escolheu Itália por amor em 2002. Apesar de não sentir falta da “anarquia nos horários, da excessiva lentidão com que se fazem as coisas em Portugal, de comer demasiado (a comida é boa mas pesada)”, nunca esquecerá a sua terra natal: “Sinto saudade da família, dos amigos, do sentido da pátria que os portugueses têm, do peixe fresco, tão bom”.  

Apaziguar a saudade

Existem diversas maneiras de atenuar a saudade. De acordo com Maria Carvalho, a viver em Copenhaga desde 2006, um remédio eficaz é “conversar via Skype, visitar regularmente a família, aproveitar o sol quando aparece na Dinamarca, conviver com portugueses quando me apetece falar português.” Um método utilizado por Adriano Costa e Teresa Pellegrini. Conforme salienta o jornalista do “Mundo Lusíada”: “Procuramos sempre as casas portuguesas que têm as músicas folclóricas, as danças, o vira, a chula, o corridinho, as comidas, os jornais da colónia - como por exemplo o jornal “Mundo Lusíada” que reporta tudo sobre as coisas de Portugal no Brasil e em Portugal ...”. Teresa Pellegrini, por sua vez, relata:“Mantenho os contactos de trabalho de maneira a ter que ir de vez em quando a Lisboa. Além disso, vou um mês de férias a Portugal no verão”. E acrescenta: “Quando estou em Itália, não penso em Portugal, tento conhecer melhor o país onde estou; quando vou a Portugal e tenho que voltar - não olho para trás, olho só para a frente”.

Contudo, o facto de se ser bem recebido no novo país é o mais forte de todos os paliativos. Conforme refere Nuno Rebelo, engenheiro oriundo do Porto a viver em S. Francisco desde 1984: “Se me sinto em casa nos Estados Unidos? Absolutamente! A minha mulher é americana, o meu filho é americano e a minha vida profissional é americana. Quando o 11 de Setembro sucedeu senti-o de tal forma que passados dois anos era cidadão americano.” Uma opinião partilhada por José Pedro Libano Monteiro, sacerdote da Opus Dei a residir no Médio Oriente desde 1989:“Sim, sinto-me em casa no meu novo país, até porque nunca estou sozinho. Na Obra temos um espírito de família que começou com os nossos pais, mas que continuou com o fundador e os seus sucessores. Isso faz com que se viva em família, uma família sobrenatural mas com muitos detalhes de carinho que nos vão ajudando.”

Maria Carvalho sente-se igualmente em casa na Dinamarca, mas conforme ressalva: “Portugal será sempre o meu país”. Adriano Costa não tem quaisquer dúvidas: “Aqui no Brasil existem eternas lembranças de Portugal - nas comidas, nas músicas, nas casas de folclore, na própria Língua falada; como o Brasil é um imenso Portugal temos sempre no coração o sentimento de que aqui é uma extensão do nosso querido e eterno país.”
Sophia de Mello Breyner escreveu uma vez: "Num deserto sem água, numa noite sem lua, numa terra nua, por maior que seja o desespero, nenhuma ausência é mais profunda que a tua!" Saudade. Os portugueses carregam-te na alma. Os brasileiros celebram-te oficialmente a 30 de janeiro. O resto do mundo exalta a tua glória. Tornas-te música, literatura, cinema. Dás nome a várias plantas (suspiros-brancos-do-monte, entre outras). Serás para sempre imortal. Uma chama inextinguível!

 

Ana Bernardo