Portugueses/Dinamarqueses

O que eles pensam de nós


Massacrados pela crise. Tristes. Mas também afáveis. Homens de História. E orgulhosos da sua pátria. Assim são os portugueses segundo os dinamarqueses. Surpreendido, caro leitor? Então, não deixe de ler este artigo. As surpresas mal começaram.

 

“Ser português é difícil”, escreveu uma vez Miguel Esteves Cardoso. Apesar de já ter alguns anos, o comentário deste escritor é mais actual do que nunca. Pelos menos a avaliar pelas respostas dos nossos entrevistados:

“Não deve ser fácil ser português neste momento”, salienta Jesper Moesbøl, consultor na área da educação no governo dinamarquês. Conforme ressalva: “Penso que viveram sempre à sombra dos espanhóis, uma situação que esta malvada crise veio piorar. Mas é pena. A minha opinião sobre os portugueses é muito positiva. Têm orgulho nos marinheiros exímios dos Descobrimentos e são também afáveis”. Uma ideia corroborada por Anders Johansen e Christian Bordinggaard, ambos consultores desportivos: “Os portugueses são orgulhosos da sua pátria e tratam muito bem os turistas. São naturalmente simpáticos. Apesar de existir um maior fosso entre camadas sociais do que na Dinamarca, considero que Portugal tem conseguido preservar uma sociedade harmoniosa”. Christian Bordinggaard salienta: “Fui a Portugal em negócios e em férias. Senti-me sempre bem-vindo e seguro. Creio que o povo português tem o gene da hospitalidade no sangue. São extraordinariamente acolhedores.” Malte Eichberg, adjunto da Ministra da Cultura, teve igualmente uma experiência positiva quando visitou Lisboa há alguns anos: “Uma cidade fabulosa! Fiquei surpreendido com a beleza da arquitectura, uma mistura fantástica de elementos árabes e europeus. O clima era perfeito, a comida excelente e muito barata. Assim como a nossa pensão. Lembro-me da simpatia ilimitada do proprietário. Apesar de não entender nada do nosso inglês e quase nada do nosso espanhol, ofereceu-nos uma garrafa de vinho da sua colheita.”

 

Algumas das opiniões divergem no que diz respeito à crise e ao temperamento. Para Pernille Bjerrum, assessora de comunicação no Ministério da Cultura “os portugueses sentem menos a crise do que os espanhóis. Bem, talvez porque são mais tranquilos do que os seus vizinhos; por vezes, até tristes. Constatei isso quando estive em Lisboa há três anos. Foi uma experiência inesquecível (a cidade tem uma atmosfera mágica, a comida é fabulosa e muito barata). Mas confesso que fiquei surpreendida com a calma dos portugueses.” Marie-Louise Helvang, jurista, refere: “Estive em Lisboa há dez anos e visitei outra vez esta lindíssima cidade há três meses. Fiquei chocada com as marcas visíveis da crise. Reduziu a alegria e a vivacidade naturais dos portugueses.” E continua, com um sorriso: “Contudo, a latinidade (aquela maneira única de falar com as mãos e sorrir com os olhos) é imperecível”.

 

“Portugal corresponde à Dinamarca dos anos 1900-1950 em muitos aspectos”

 

Outro dos desafios que lançámos aos nossos entrevistados foi descrever Portugal e/ou os portugueses em escassas palavras. “Vinho do Porto”. “Sol”. “Cristiano Ronaldo”. “Fado”. Eis as respostas mais frequentes. Mas há quem “viaje” mais longe. Malte Eichberg, por exemplo: “Portugal em poucas palavras? Peixe fresco soberbo, literatura de qualidade (Pessoa – subsquentemente, absinto - Saramago), Descobrimentos, terramoto de Lisboa nos anos de 1700. E a revolucão dos cravos.” Para Lene Gelting, chefe de departamento no Ministério da Cultura, o 25 de Abril teve um significado especial: “Era jovem quando a revolução dos cravos aconteceu. A maneira pacífica como foi orientada e a paz adjacente tiveram um impacto profundo na minha personalidade”. Mette Graversen, estudante de literatura na Universidade de Copenhaga, também não é indiferente à história e literatura lusitanas: “A Tabacaria de Fernando Pessoa foi um dos melhores textos que li na minha vida. Os portugueses possuem uma vontade insaciável de expansão. Veja-se Vasco da Gama, o descobrimento do caminho marítimo para a Índia e, seguidamente, o comércio das especiarias. Já para não falar da tentativa de colonização do norte de África e da colonização da América do sul.”. E prossegue: “Os portugueses nunca quiseram aceitar a invasão, quer dos espanhóis, quer dos muçulmanos. A sua necessidade de liberdade foi de tal maneira evidente que historicamente conseguiram, por diversas vezes, desamarrar-se de grandes potências e, simultanemante, criar uma identidade nacional única. Mesmo em tempo de crise”.

 

Praticamente todos os dinamarqueses com quem falámos consideram Portugal pobre e profundamente afectado pela crise. Poul Dalby, consultor político, é peremptório: “Para mim, o turismo e a agricultura/pesca são fontes de rendimento mais importantes do que a indústria. Nesse sentido, penso que a sociedade portuguesa é pouco moderna. Nunca tive conhecimento que Portugal possuísse quantidades consideráveis de matérias-primas. Em muitos aspectos, considero que Portugal corresponde à Dinamarca de 1900 a 1950 – uma nação prioritariamente agrícola, com uma indústria e um nível de educação visivelmente crescentes. Mas, atenção, é um país lindíssimo”. Mette Graversen acrescenta: “Infelizmente, Portugal não tem conseguido administrar bem a sua necessidade de ser algo mais do que uma opressão da Península Ibérica. Diversas vezes, deixou-se levar por projectos económicos totalmente fracassados. Mais recentemente com a União Europeia, mas também com o negócio das especiarias nos anos de 1500 (provavelmente, um dos projectos mais prestigiosos da Europa daquele tempo) que lançou o país num desespero económico terrível.” Para Jesper Moesbøl “Portugal demorou demasiado tempo a dar independência às suas antigas colónias. Se a descolonização tivesse sido conduzida de outra forma, tinha-se poupado muita angústia”.  

Os elogios. As críticas. O Cabo da Boa-Esperança. O Cabo das Tormentas. O passado glorioso. A crise que teima em ficar. O tudo ou o nada. Sim, não é fácil ser português. Mas aqui entre nós - é precisamente essa personalidade ambígua e complexa que caracteriza a “portugalidade”. Aonde quer que estejamos, trazemos o mundo connosco. Como genialmente salientou Fernando Pessoa: “O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português. Foi sempre tudo”. 


Ana Bernardo